• Larissa Alves

Diversidade de corpos no CrossFit

Você acredita que somos realmente livres para escolher? Que seu gosto pessoal é inteiramente diferente dos outros, que nossa mente não é influenciável? Vou te contar uma coisa: não somos. Nossos gostos, preferências, desgostos e escolhas são moldados através da bagagem social que carregamos durante a vida. O que achamos bonito e feio, geralmente segue um padrão já pré-estabelecido.

O conceito de beleza não é único ou atemporal. Na verdade ele se molda em volta da época, da cultura e até mesmo da política. Cada época tem seu conceito de beleza e feiura, mas não necessariamente uma coisa é feia ou bonita por seguir ou não esse conceito. No livro “A história da Beleza”, de Umberto Eco, explica que houve um tempo em que a sociedade achava que a beleza era o sinônimo de bondade, logo, a moralidade, caridade e religiosidade era o considerado belo. Também existiu o conceito de que o belo era considerado o que se queria possuir, ou aquele em que os padrões eram regidos pela estética artística grega e renascentista, daí a beleza dos corpos passou a ser a de um corpo simétrico, o qual não se afetava pelas leis da gravidade (tudo em cima, empinadinho). Seja lá qual for a época, ela tem um padrão de beleza instituído para a sua sociedade, e todos querem alcançá-lo.


Em nossa sociedade atual há o padrão de beleza do corpo perfeito, com silhuetas simétricas, magras e com curvas apenas nos lugares pontuais, onde o menor sinal de dobrinhas na barriga pode nos fazer cogitar uma dieta restritiva, uso de cintas apertadas e até mesmo intervenção cirúrgica. Onde um corpo fora desse padrão inalcançável é considerado fraco, ou, em alguns casos, forte demais.


No esporte, infelizmente isso não é diferente. Apesar de ser mais inclusivo e aberto, o esporte ainda é cercado de alguns preconceitos que muitas vezes excluem e impossibilitam a entrada desses corpos fora do padrão. E é claro que para o público feminino isso é milhões de vezes mais latente.



É o que conta Camila Pereira:

“Eu nunca fui “magra”, sempre tive um corpão sabe, quadril largo, braços fortes… E desde sempre sofri muito com isso. Desde dificuldades pra comprar roupa, olhares e comentários desnecessários. Eu já ouvi: "nossa ela se acha porque pega muito peso"… "Ah mas ela aguenta isso de peso porque é gorda, não é forte". Uma vez, e acho que essa foi a mais difícil de manter a calma, eu ouvi: nossa mas você faz CrossFit e continua gorda!


Antigamente essas coisas me abalavam. Cheguei a fazer dietas malucas para chegar no padrão da sociedade e só consegui ficar doente. Tinha vergonha de usar regata, vergonha da minha barriga flácida. Fora a parte do cabelo raspado na lateral e das tatuagens, né! Parece homem, será que é gay ou hétero? Cara de ogra! Perdeu a feminilidade!


Hoje? Ah hoje eu sou contra qualquer tipo de rótulo ou padrão. Me amo demais pra me importar. Treino, faço acompanhamento com uma nutri maravilhosa e não estou em busca de padrão ou de me encaixar em algum rótulo. Quero saúde! Quero estar bem! Mas esse preconceito faz mal demais! As pessoas precisam se amar pra conseguir amar o próximo também! E amar não é corpo, não é padrão, é sentir, é enxergar de verdade. Eu sou muito mais que o meu corpo! Eu sou uma mulher que trabalha, que é responsável, mãe, esposa, dona de casa e sim, eu amo levantar peso! Me sinto um espetáculo com o meu snatch de 70kg, meu clean & jerk de 75kg, e o meu thruster de 65kg!"


E se você acha que isso foi muito, imagina quando se é uma figura pública? Os comentários e achismos sobre o corpo de uma figura pública são infinitos! Vários especialistas em saúde surgem quando o famoso posta alguma foto. São web nutricionistas, médicos e educadores físicos dando receitinhas, dietinhas. E quanto à mulher musculosa? Ah, aí vêm os especialistas em relacionamentos, gostos alheios e medidores de beleza.


A atleta que já foi 2º lugar no TCB na categoria teens, de 2017, 2º lugar na seletiva do TCB de Jundiaí na categoria elite, em 2018, ganhou o Spunk Games, e o Bope Games, em 2019, e neste ano garantiu o 2º lugar no TCB na elite. Estamos falando de ninguém menos que Gabi Moratti, que recentemente desabafou nas redes sociais sobre críticas relacionadas ao seu corpo.


Gabi Moratti on Instagram:

"3 preconceitos que já sofri no Crossfit 👇


1) Sou mulher. Logo, sou mais fraca que homem;

2) Estou forte. Logo, estou feia;

3) Minha performance está boa. Logo, estou tomando anabolizantes.


Hoje, sem diminuir a importância do primeiro e do terceiro, vim falar sobre o segundo. Neste ponto, eu já ouvi de tudo. Mas se pudesse eleger uma coisa que todos os julgamentos têm em comum é: uma mulher musculosa é feia por parecer um homem.


Tem noção o absurdo que é isso?


Uma frase dessas é dizer que só homens tem direito a desenvolverem músculos. Uma frase dessas é colocar no homem a referência pra se definir se uma mulher é bonita ou não. Uma frase dessas é resumir toda a nossa feminilidade a nossa aparência.


Eu normalmente não falo destas coisas por aqui, mas é tanta babaquice que vem aparecendo aqui no Instagram que resolvi me manifestar. O corpo é meu e a beleza dele tem que ser reconhecida por mim e por quem eu entender que a opinião é válida. O corpo é meu e ele ser bonito ou não depende dos meus critérios, e não daqueles que a sua projeção faz sobre ele. O corpo é meu, mas eu não sou só ele. Eu sou mais que aquilo que você que não me conhece enxerga.


De novo, o corpo é meu. Só meu. E ele não pertence a ninguém pra ter que ficar ouvindo estes comentários machistas. Assim como o seu preconceito diz respeito a você e, por isso, eu não tomo pra mim, eu, Gabi, corpo e alma e coração, só pertenço a mim mesma.


Então espero que vc não cogite ter direito de fazer o mesmo. Este post não é só sobre meu corpo ou sobre os preconceitos que já sofri. É sobre todas nós que temos que lidar com isso dia após dia. E achar “normal” só pq é frequente é inaceitável."


Seja dentro e fora do esporte, as críticas quanto aos nossos corpos sempre vão existir, e cabe à nós entender que o corpo ideal é o corpo que nos faz felizes, física e mentalmente. O corpo ideal é aquele que não nos exige penitência, mas sim incentivo e amor!

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